#5: A Hora do Mal, de Zach Cregger
Armas invisíveis e feridas escancaradas. O Terror além do sobrenatural.
Na semana de Halloween, escolhi revisitar A Hora do Mal — um dos filmes de terror mais comentados do ano e que, entre tantos bons exemplares, me deixou particularmente satisfeito. Lançado pela Warner em meio a um ano especialmente fértil para o gênero, o longa de Zach Cregger confirma uma tendência muito bem-vinda: a de que o medo anda mais interessante quando não se explica demais.
Justine Gandy (Julia Garner), professora do terceiro ano, chega à escola e encontra apenas uma cadeira ocupada. Todas as outras crianças desapareceram — sem pistas ou sinais de luta — durante a madrugada. É a partir desse evento que Cregger constrói o retrato de Maybrook, uma cidade pequena consumida pelo trauma coletivo. O mistério existe, mas é o comportamento das pessoas diante dele que realmente importa. O filme expõe o terror difuso que se espalha quando algo impossível parece ter acontecido. Afinal, o que poderia ter arrastado dezessete crianças para fora de casa às 2h17 da manhã?
É logo após uma belíssima sequência, embalada pela fantasmagórica e estranhamente doce Beware of Darkness (George Harrison), que percebemos que não é o desaparecimento em si que conduz a narrativa, mas a ferida que ele abre. Entre mães desesperadas e pais tomados pelo luto, a comunidade não demora a voltar sua fúria contra Justine, que, embora também seja vítima, passa a carregar o peso das suspeitas. Essa reação imediata, tão emocional quanto equivocada, serve ao diretor como ponto de partida para expor um perigo mais oculto — aquele que se move sem ser notado enquanto a cidade se ocupa em procurar culpados mais acessíveis.
Cregger, que já havia mostrado em Barbarian seu gosto por reviravoltas e atmosferas claustrofóbicas, parece mais confiante aqui. Uma das ótimas sacadas de A Hora do Mal é nos manter desequilibrados. Explico: cada vez que acreditamos estar próximos de desvendar o que está acontecendo, o chão muda um pouco. Ao longo de duas horas, o diretor concede ao espectador um olhar quase onisciente da comunidade, dividido em capítulos — um quebra-cabeça de vozes e perspectivas.
Primeiro acompanhamos Justine, depois Archer (Josh Brolin), pai de uma das crianças desaparecidas, e aos poucos uma série de personagens orbitando essa tragédia. Essa montagem em capítulos, cada um com seu tom e ritmo, poderia soar dispersa, mas acaba funcionando bem demais. A estrutura fragmentada vai entregando camadas que nem sempre conduzem à resolução do mistério, mas mapeiam o emocional de uma comunidade marcada pelo trauma.
Visualmente, A Hora do Mal impressiona. Cregger explora planos-sequência muito competentes, composições visuais inventivas e enquadramentos que mantêm o espectador atento. Destaco, inclusive, sua mise-en-scène, que reforça essa proposta da narrativa em fragmentos: desde o início, em algumas cenas, Cregger filma os principais personagens de costas, ocultando seus rostos. Momentos depois, quando a narrativa nos permite compreender suas dores e escolhas, esses rostos ganham nitidez — como se apenas então tivéssemos conquistado o direito de encará-los. Essa decisão estética não é mero artifício; é o próprio conceito do filme materializado, como se nós também montássemos esse quebra-cabeças.
O impacto visual é potencializado pelas ótimas performances do elenco. Julia Garner constrói uma Justine Gandy que oscila entre fragilidade e resistência. Josh Brolin entrega, com muito domínio, a figura de um pai que alterna fúria e desamparo, enquanto Alden Ehrenreich interpreta o policial Paul, cuja autoridade revela mais medo do que controle. As interpretações convincentes, somadas ao crescente mistério que permeia o filme, preparam o terreno para a entrada de uma figura quase folclórica, de feitiços rudimentares e sorriso desconcertante: Tia Gladys (Amy Madigan). Simbolicamente, seu personagem reflete o mal que já circulava por ali. Antes, se pressentia. A partir dela, esse mal ganha forma, som e permanência.
O terror de A Hora do Mal vai além do sobrenatural; ele mostra como uma comunidade pode se autodestruir ao focar sua revolta nos alvos errados. Seu título original, Weapons, funciona também como metáfora: assim como Gladys, o mal transforma pessoas em instrumentos de seu poder, manipulando medos e fragilidades como armas. Se Archer tivesse se aliado a Justine mais cedo, ou se James (Austin Abrams) fosse visto como alguém digno de atenção, talvez algumas tragédias fossem evitadas. No fim, A Hora do Mal reafirma por que o terror é um dos gêneros mais honestos ao falar sobre o nosso íntimo.
A Hora do Mal transforma o medo em espelho, e sua mensagem, reforçada por uma estética impecável, supera qualquer falha pontual. A vilã pode até ter nome e rosto, mas o verdadeiro horror brota de nós mesmos — dos impulsos, das culpas e das violências que preferimos ignorar. Os maiores vilões seguem impunes. E se o mal não for um visitante, e sim o dono da casa?
FICHA TÉCNICA
Título Original: Weapons
Ano: 2025
Direção: Zach Cregger
Gênero: Terror, Mistério
Duração: 129 min
País: Estados Unidos






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