You're So Cool
Sobre cinema, pessoas, e amar sem saber explicar.
Quase sempre erro a minha idade quando tento localizar os acontecimentos importantes da infância. Em quase todos eles, penso ter seis anos. Não sei exatamente por quê. Talvez seis seja uma idade confortável para a memória, uma idade que explica tudo sem precisar justificar nada. No caso do cinema, no entanto, o meu primeiro contato foi aos quatro, e não aos seis. Descobri isso depois, fazendo contas simples e confirmando no Google. Sou de 94. Fui ver Mulan com Mamusca. A memória não guardou o número, mas guardou o impacto.
Lembro do que senti com uma clareza que não tenho sobre mais nada daquele período. Não da história em si, mas da sensação mesmo. Algo que só consigo chamar de descoberta de possibilidades. Como na vez em que uma tia me apresentou aquele disco do New Radicals, ainda criança. Até então, no meu mundo, música era o que tocava no rádio e escapava pelas novelas, um pouco de pop nacional, uma melodia estrangeira aqui e ali. Daí de repente, aquele disco existia. Como assim existe música desse jeito? A sensação era dupla: o deslumbramento imediato e a certeza de que havia muito mais de onde aquilo tinha vindo. E eu era novo. Eu tinha a vida inteira pela frente. Tempo de sobra para descobrir todas as bandas e artistas.
Também foi assim com a animação da Disney. A sala enorme, a tela maior do que qualquer coisa que eu conseguia imaginar do lado de fora, o som que não respeitava limites domésticos. Apaixonado. Atônito. Incrédulo num primeiro momento, mas aos poucos acreditando. Emocionado. A ideia de que havia muito mais daquilo, e de que eu teria tempo para viver e assistir a tudo, me parecia uma promessa razoável.
Eu já tinha assistido a filmes antes, claro, mas curiosamente não me recordo. O cinema, enquanto experiência na própria sala, é que inaugura esse interesse. Depois disso, minha cabeça passou a registrar filmes e interações cinematográficas com uma precisão quase obsessiva, como se algo tivesse sido acionado ali.
Tia Elenita — a mesma do New Radicals — assinava um jornal semanal e, numa daquelas promoções tão comuns na época, passamos a receber fitas VHS dos Trapalhões. Uma por semana. Eu, que até então tinha como heróis os Power Rangers, fui apresentado a outro tipo de heroísmo. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias faziam tudo. Tudo mesmo. Aventuras, paródias, fantasia, ação. E enquanto eu me encantava com o que considerava uma versatilidade absoluta, comecei a perceber que aqueles filmes apontavam para outros. A Princesa Xuxa e os Trapalhões me levou a Mad Max III. Os Trapalhões e o Mágico de Oróz despertou meu interesse por O Mágico de Oz. Nenhum deles, na minha perspectiva de garoto, chegava aos pés dos próprios Trapalhões — o que diz muito mais sobre a minha idade do que sobre cinema.
Sinto falta dessa inocência. Sinto falta de não saber (e não precisar) explicar. Da mesma forma que eu não tinha argumentos técnicos para justificar por que Maybe You’ve Been Brainwashed Too era maravilhoso — eu apenas sentia —, eu também não sabia explicar por que era tão apaixonado pelas histórias que a tela contava. E não queria saber. As explicações não me interessavam. O retorno, sim.
Hoje, especialmente hoje, escrevo um tanto mais livre aqui. Climinha de fim de ano. Me aproveito. Peço perdão por qualquer parágrafo que não converse muito bem com o tom do todo. É que talvez o trecho mais melancólico da história seja também o mais importante. Pensei em evitá-lo, mas não seria honesto comigo nem com o caminho que percorri.
Um dos períodos mais felizes da minha infância foi quando tive acesso às locadoras. Acompanhei a transição do VHS para o DVD como quem assiste a uma mudança de estação. Todo fim de semana, alugava filmes, os que eu já tinha visto inúmeras vezes ou os que o Ivanildo, dono da Sanvideos, me recomendava.
Ivanildo foi um herói muito particular na minha vida. Um herói acessível. De carne e osso. Falava manso, sem qualquer soberba sobre o que era ou não “cinema de verdade”. Conversava comigo e com meus primos pelo tempo que fosse. Guardava lançamentos para a gente pegar primeiro. Nos presenteava com pôsteres que recebia aos montes das distribuidoras. Um cara massa mesmo.
Meu pai não foi presente na minha criação — e essa história não é sobre ele —, mas é verdade que eu sempre olhei com admiração para esses caras que tinham algo a me ensinar e que me demonstravam algum afeto.
Nas recomendações e na troca descontraída, Ivanildo me ensinou, sem saber, que cinema também é gesto, que afeto se projeta. Desde então, eu sonhei em ter minha própria locadora e ser igualzinho a ele. Aquela seria minha profissão. Sem exageros, era tudo o que eu queria. A parte triste, e que nem toda a terapia do mundo me fará superar por completo, é que as locadoras morreram antes da minha juventude. Quando chegou minha vez no mercado de trabalho, o streaming já ditava as regras. Enterrei o sonho ali mesmo e sigo, até hoje, tentando ressignificá-lo como hobby.
Na adolescência, outras descobertas se abriram.
Eu não era o mais popular com as meninas. Aos dezesseis, eu era, supostamente, o único da turma que ainda não tinha dado o primeiro beijo. O que isso significava, segundo eu mesmo, era simples: eu tinha mais tempo para assistir séries enormes e centenas de filmes. Já bastante inserido no mundo digital, aprendi a baixá-los. Organizava tudo com cuidado, em pastas separadas por década.
Minha locadora pessoal. Infinita.
Foi também nessa época que o cinema começou a deixar de ser apenas encantamento pra mim, se tornando algo mais. E começou através de um filme bem bobo/juvenil que eu adorava: Quebrando Regras. Gostava porque gostava. Prazer culpado, pra quem acredita nisso. Eu acreditava. Um dia, procurando algo parecido, li algo que ligava o nome do protagonista, Jake Tyler, a outro Tyler (Durden). Li a sinopse e achei curioso esse tal de Clube da Luta. Outro filme de lutinha, pensei. Ainda por cima, com Brad Pitt. Tô dentro.
Não recebi um filme de luta. Recebi um deslocamento. Algo que me tirou do eixo e me manteve sentado ao mesmo tempo. Não entendi para onde o roteiro estava indo, e essa falta de chão me prendeu mais do que qualquer explicação. Fiquei hipnotizado pelas atuações, pela sensação de que o filme não estava ali para me agradar, mas para me desafiar. Aquela pergunta antiga voltou: como assim existe filme desse jeito? É verdade que, hoje, observando em retrospecto, penso que eu só precisava mesmo assistir a mais filmes. Digo… Clube da Luta está longe da perfeição, mas ali, naquele momento, reproduzido no meu winamp, foi amor à primeira vista. Descoberta.
Tive fome. Muita fome.
Depois vieram as listas. Não sei bem o que rola, mas sou obcecado por elas. Deve ser coisa de signo. Pulp Fiction, Um Sonho de Liberdade, Antes do Amanhecer... Cada novo filme vinha acompanhado de uma sensação meio ingrata, meio vaidosa: a de que eu tinha desperdiçado tempo com os meus primeiros mil. Uma doideira e uma bobeira. Acreditei, por algum tempo, que só esses filmes importavam e o resto não tinha valor. Consumido por fóruns e rankings, passei a desprezar comédias simplórias e os clichês de ação. Tolice. Amadurecer foi, também, aprender a apreciar o conforto da previsibilidade. Obrigado por tanto, Adam Sandler.
Adulto, dessa vez morando com meu primo Romário — que é irmão para mim —, atravessei um período complicado da vida. Trabalhava muito, tentava conciliar ofícios com uma faculdade que nunca tive chance real de terminar, e usava a máscara comum de quem acredita estar com tudo em ordem. Eu estava era bem triste, mas também não é papo pra agora.
O momento genuinamente feliz dos meus dias, sem plateia e sem performance, era ao seu lado. Duas cadeiras puxadas para frente da tv, contrariando a organização da sala da minha tia, e aquela pipoca de lei. Dogville, Magnólia, Guerra nas Estrelas, Porcos e Diamantes… Às vezes eu sugeria, às vezes ele. Às vezes o sono vencia, às vezes víamos dois seguidos. Me apaixonei de novo pelo cinema e, principalmente, pelo Romário. Ali, naquela chuva de sapos que aprontou Paul Thomas Anderson, se forjou a amizade mais importante dos meus anos seguintes.
E o cinema, como em tantas outras vezes, ponte.
Hoje, frequento o cinema pelo prazer de estar lá. Pelo evento. Pelo ritual. Não necessariamente pela promessa de qualidade. O filme bom e o filme ruim, ambos valem meu ingresso. Já assisti a três filmes numa mesma ida. Também já fui cinco dias seguidos. Me sinto em paz com o lugar que ele me demanda. Sei do que gosto, do que não gosto, do que assisto mesmo sem amar e do que não me submeto só por ser norma dos entendidos. Ainda assim, depois de tanto, ele segue me surpreendendo.
Levo uma vida meio nômade e, nesse ano, vivi Florianópolis um tanto. O CineMulti apareceu quando eu nem buscava tanta coisa. Era início de uma transição de carreira (na qual ainda me encontro), escrevendo bastante, me recolhendo (me isolando) mais do que o habitual. Não conhecia muita gente na cidade, mas precisava de um cinema para chamar de meu. Sabe aquela coisa de eleger um território mínimo? pertencer? Ele brilhou. Jóia escondida. Me chamou.
O encontro não poderia ter sido mais certeiro. Uma única sala, com alma de cinema de rua, dessas cada vez mais raras. Poucos filmes em cartaz, sessões únicas por dia, uma curadoria cuidadosa. Usei e abusei das sessões duplas enquanto estive lá. Numa dessas noites, indo para a última sessão, um atendente me ofereceu pipoca. É de graça. Tinha sobrado, o shopping já estava vazio, não venderia mais. Um gesto pequeno, simples, mas que para alguém apaixonado por gestos, significou tudo. Eu sabia que tinha encontrado algo muito especial, minha nova descoberta.
A descoberta não seria o que foi sem Fernando, o dono. Logo virei presença constante. Vieram as conversas, as mensagens, o reconhecimento mútuo de duas pessoas que não sabem viver sem essa arte. Cinema charmoso, atendimento afetuoso e alguém disposto a papear por horas. Não tive a menor chance. You had me at hello. Mais uma vez, me apaixonei.
Comigo, cinema é esse relacionamento que sempre comporta ainda mais amor. Tudo o que devo a ele, ele nunca me cobrou. Na tristeza e na alegria, se eu quero tanto viver é porque filmes existem. Veja você, que quando penso no último dia — que definitivamente não me assusta —, meu lamento maior, confesso, é pelos bons filmes que não verei. Queria saber explicar tudo isso de maneira mais sucinta. Porém, se tento, fracasso.
Começou com Mulan, mas se refez, a paixão, inúmeras vezes mais. Não há um momento mais marcante que o outro. Há apenas o todo. O todo que sempre esteve aqui e que, se eu seguir com essa sorte toda, sempre estará.
“Olho para trás e me espanto com a clareza e a verdade dos meus pensamentos, com o fato de que três palavras atravessavam minha mente sem parar, repetindo-se como um disco arranhado: you’re so cool, you’re so cool, you’re so cool”.
Na cena final de Amor à Queima-Roupa, Alabama (Patricia Arquette) dirige um conversível, deixando o caos para trás em direção a um pôr do sol calmo, promissor. Clarence (Christian Slater) dorme ao seu lado, gravemente ferido, vivo por pouco, com a cabeça apoiada em seu ombro. Enquanto a estrada avança, a voz dela surge em off, simples, meio desajeitada, como só declarações honestas conseguem ser. Apaixonada, ela não procura grandes palavras, não tenta organizar o sentimento. Apenas confessa aquilo que lhe atravessou a mente, repetidas vezes, como um pensamento insistente, quase infantil, sobre um amor imensurável.
É, cinema. É isso que também sinto.
You’re so cool… You’re so cool… You’re so cool…








Que texto bom de ler, Davi!